Onde estão eles?
Onde estão eles?- pergunta Jesus no evangelho deste V domingo da Quaresma. Onde estão os impecáveis, acima de qualquer suspeita, as pessoas cumpridoras, perfeitas que, por se julgarem tais, apontam o dedo aos pecadores?
Estão por todo o lado, também dentro da Igreja Católica e, infelizmente, não parece que sejam uma espécie em vias de extinção. Quem são eles? Não penses em fulano ou em sicrano: olha para ti mesmo, olhemos para nós próprios e reconheçamos o farisaísmo que nos leva a julgar e a desprezar os outros quando os surpreendemos nas suas debilidades e pecados, reeditando e multiplicando o irmão mais velho do filho pródigo. Consideramo-nos melhores que ninguém se conseguirmos dar de nós mesmos uma boa imagem que, as mais das vezes, é apenas a casca envernizada de um fruto podre.
Falando de si mesmo, diz S. Paulo que, antes de ser cristão se considerava uma pessoa impecável, irrepreensível no cumprimento escrupuloso da Lei, como fariseu que se prezava de ser. Mas quando se encontrou com Cristo Ressuscitado deu-se conta de que o seu tesouro, além de não ter qualquer valor, era prejudicial: o que era para mim lucro tive-o como perda por amor de Cristo. Mas ainda, considero todas as coisas como prejuízo quando as comparo com o bem supremo que é conhecer Jesus Cristo meu Senhor. Por Ele renunciei a todas as coisas considerando-as como lixo (Fi. 3, 7-8).
Desistindo da sua própria justiça conseguida pelo cumprimento da Lei, Paulo deseja apenas viver em Cristo com a justiça nova que vem de Deus e se funda na fé (FI 3, 9), justiça que o Senhor oferece gratuitamente aos que n’Ele acreditam.
Para ele e para aqueles que se deixam denunciar por Jesus e experimentam o seu amor misericordioso que tem poder de nos recriar, Jesus é o bem supremo. Para os fariseus de todos os tempos e lugares que vivem nas trevas e se defendem da luz, Jesus é uma presença incómoda, acusatória, insuportável. Para os primeiros, Jesus é salvação porque os ilumina com a verdade, e pelo perdão dos pecados redimensiona as suas vidas fazendo-os esquecer o passado e abrindo-lhes as portas de um futuro novo, enchendo-os de esperança: Vai! Doravante, não tornes a pecar! Para os outros que desconhecem a graça de Deus e a sua realidade profunda de pecado, que vivem apoiados na sua justiça e se gloriam das suas obras, Jesus é apenas um perigo a evitar, alguém a abater. Porque desapareceram aqueles fariseus denunciados pela palavra e pela presença de Jesus? Ele não mandou ninguém embora, apenas disse que atirasse a primeira pedra quem não tivesse pecado!
Ficou só Jesus e a mulher que estava no meio (Jo 8, 9). Jesus não a condenou, livrou-a da morte e advertiu-a para que não voltasse a pecar. Como não podemos identifica-la com Maria Madalena nem com a irmã de Lázaro e de Marta, não soubemos mais nada acerca desta mulher. Talvez este encontro com Jesus não tenha tido consequências muito relevantes para a sua vida espiritual. Entre os que acolhem com alegria a luz de Cristo e os que defendem as suas trevas está a multidão daqueles que Jesus ajudou e O esquecem ou se aproximam d’Ele cautelosamente como de uma fogueira para se aquecer, mas tendo muito cuidado para não se deixarem apanhar pelo fogo que Ele veio lançar à terra. Esses recebem mas não dão. Não se dão. É-lhes oferecido um tesouro e desprezam-no por falta de discernimento. Dizem-se cristãos mas veem no Cristianismo uma religião como outra qualquer, e não a manifestação da Vida de Deus no meio dos homens e da Sua justiça surpreendente que confunde os soberbos e dá a sua graça aos humildes.
Convertamo-nos aos Senhor! Amemos o Senhor! Certamente, não é fácil deixarmo-nos denunciar pela sua santidade e reconhecermo-nos pecadores, deixarmos de prestar culto a nós próprios e de exibir as nossas boas obras procurando o aplauso dos outros como faziam os fariseus. Não é fácil. Mas sem o desmoronar dos inconsistentes castelos da nossa própria justiça, como poderemos esquecer o que fica para trás e lançarmo-nos para diante, atraídos pela promessa de Cristo? Como poderemos acreditar n’Ele e cantar as Suas maravilhas se persistirmos em receber glória uns dos outros mas não procuramos a glória que vem do Deus único (Cf. Jo 5,44)? É muito perigoso estarmos egoisticamente instalados na Igreja, insensíveis à santidade de Deus e ao seu amor misericordioso, procurando servir-nos d’Ele em vez de O servirmos. O povo que formei para mim cantará os meus louvores (Is 43,21).
Deus não tem dificuldade de formar um povo novo a partir de chacais e avestruzes, a partir de gente não viciada em religião, quando aqueles que são o Seu povo perdem a consciência da maravilha que é serem objeto da sua eleição amorosa e a desprezam. Foi assim com a conversão dos gentios nos primeiros tempos da Igreja, foi assim com a conversão dos bárbaros na alta Idade Média e assim é também nos nossos tempos.
Estamos chegando ao fim desta Quaresma e aproximam-se as Celebrações Pascais. Nelas, é o próprio Senhor que vem à procura dos que jazem nas trevas e na sombra da morte (Lc 1, 79) para os iluminar e vivificar com o seu Espírito. Onde estão eles?
João Marcos,
Bispo coadjutor de beja