O calendário

Sexta-feira à tarde. É vê-los (e vê-las) sorridentes e apressados a caminho de casa ou a dirigir-se ao supermercado em busca de um melhorado abastecimento de víveres para os dois dias que se seguem. O fim de semana está à porta e é necessário robustecer a paciência e recompor o estômago, que, durante cinco monótonos dias, só Deus sabe como é que foi. Uff! Que alívio! Depois de uma cansativa semana, que bom vai ser aquele tempo dedicado à família [presume-se que o seja!], ao lazer e ao descanso, que um homem não é de ferro!
Ainda bem que o tempo está dividido em dias e semanas, em meses e anos, e que as semanas têm dias de trabalho e dias de descanso. Esta divisão do tempo deve ter sido das melhores coisas alguma vez feitas. Sem esse trabalho, não haveria calendário e, sem calendário, - desculpem a brincadeira — como é que se poderiam marcar as férias? Além do mais, os sindicatos andam sempre atentos aos direitos dos trabalhadores e estes são quem melhor sabe como ocupar dignamente os dias de trabalho e os de descanso. Estes últimos, por serem de fim- -de-semana, carregam valores religiosos e de aprofundamento dos laços familiares, a complementar os dias laborais.
Atualmente, com trabalho por turnos e fábricas a laborar vinte e quatro sobre vinte e quatro horas, tudo se modificou. Neste contexto, o domingo — que deixou de ser o primeiro dia da semana e passou a fazer parte do fim de semana de descanso — acabou por perder algum sentido religioso.
E, já que falamos em fim-de -semana de descanso, pensemos nos outros cinco dias dedicados ao trabalho. E interessante notar que cada dia semanal tem um nome, atribuindo-se aos caldeus a honra de os terem “batizado” — costume que foi adotado no império romano ao consagrá-los ao Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vénus e Saturno, exatamente por esta ordem. As línguas modernas do mundo ocidental, exceto a portuguesa, usam essa nomenclatura.
Em Portugal usamos também a palavra feira para significar dia de trabalho. Assim, 2.a feira... 3.a feira... A primeira feira [feria] era o domingo (antes de ser “dia santificado”). Interessante também é o significado da palavra dia. Chama-se dia às 24 horas que vão da meia-noite à meia-noite seguinte.
Mas também ao tempo que vai do nascer ao pôr-do-sol, ou do entardecer até ao entardecer seguinte. Também foram os caldeus a introduzir a divisão do dia em 24 horas, mais tarde generalizada no ocidente. Ora o calendário é um sistema de contagem do tempo, baseado no movimento da terra e da lua à volta do sol, pelo que há calendários solares e calendários lunares, dentro dos quais também há meses e semanas solares e lunares. O mês lunar tem 29 dias, 12 horas, 44 minutos e 3 segundos, enquanto o mês solar pode ter 30, 31 ou 28/29 dias. Mas o que a maioria das pessoas não sabe é que, no mundo ocidental, o atual calendário se chama calendário gregoriano, em uso desde 1582 (do papa Gregário XIII). Foi imposto a todo o mundo ocidental que o adotou de bom grado. Assenta no calendário juliano (de Júlio César), em vigor desde o ano 46 aC. O calendário gregoriano é um calendário solar que começou a contar os anos a partir do nascimento de Cristo. O ano 1 da nossa era tem equivalência ao ano 753 da fundação de Roma.
Cón. Manuel Maria, in a defesa 4 de julho de 2018