A moda da descrença

Não tenho nada contra as pessoas que, na sua liberdade de expressão e de escolha, escolhem ser ateus, agnósticos ou simplesmente não crentes. Isso é lá com eles. Não ter nada contra não significa que, para mim, tal afirmação tenha o mesmo ou maior valor que o seu contrário como parece deduzir-se das palavras de quem afirma ser ateu. Aliás, diz-se cá pelos nossos lados que «presunção e água benta...» e anda por aí muita presunção «científica» a querer substituir-se às crenças.
Os militantes da descrença obedecem a um conjunto de princípios, repetidos em doses variadas desde o século XIX, e que poderíamos caracterizar em seis alíneas. Observemo-las: a) A fé pertence às fases pré-críticas da condição humana, superadas na Europa pelo ideal democrático e laico do Republicanismo político e da Ilustração. b) Um homem moderno deve fiar-se só na Razão e na autonomia desta. Pode, mas não deve crer. Uma atitude religiosa, uma crença num Deus Sumo Bem ou Arquiteto do universo, ainda vá, pode aceitar-se, mas nunca a crença numa revelação que inclua verdades e atitudes morais, c) O valor supremo da História humana é a cultura libertadora e transformadora, primeiro, dos mitos religiosos, depois, dos mitos sociais. Se a fé serve para isso, tem o seu lugar, mas se chega à transcendência, então não cabe por cá. d) Os cristãos têm uma memória histórica com algum interesse. Será difícil negar-lhes uma cultura que continua nos monumentos e nas tradições. Mas essa memória é uma arqueologia, e) O valor de Jesus de Nazaré consiste em ter sido um grande socialista, um amigo dos desvalidos e dos marginais, mas sem nenhuma referência ao mistério de Deus. f) A fé é um engano e a sociedade deve ir secularizando o que ainda resta da fé pública ou da presença da Igreja na sociedade, na escola e na família.
— Ena! Um comboio de “afirmações cheias de sabedoria”! Pois é! O século XX viveu estes princípios como dogmas! Por isso, a atitude religiosa da descrença tinha atrativos só seus, principalmente para os intelectuais. Estes eram, afinal, a nata, a inteligência, os espíritos orientadores. Não eram simplesmente modernos para a sua época. Eram a modernidade. Ditavam o andamento. Não se tratava de inteligências de segunda categoria. Alguns deles eram os principais pensadores no seu mundo e, nas suas especialidades — ciência, conhecimentos bíblicos, artes, história - eram altamente respeitados. Hoje, há dois espinhos que estes “intelectuais” trazem cravados: as aulas de Religião e Moral nas Escolas públicas e os Capelães nos Hospitais públicos (no serviço aos doentes e nas comissões de ética). E a teoria de que o Estado laico não pode admitir estas ingerências religiosas, por serem um ultraje e atropelo ao seu laicismo (escrevi laicismo, não laicidadel). “Gostava que o seu filho, criança ou adolescente, tivesse educação na religião católica que professa? Ora vá lá ter essas considerações para a gruta medieval de onde seguramente acabou de sair”. Ouviram bem? Que tipo de Estado totalitário dá esta liberdade aos pais? Pois a moda da descrença tem levado a que alguns portugueses católicos tenham de “se sujeitar”, enquanto esses “democratas” laicistas espirram em momentos em que os seus ódios de estimação têm voz...
Cón. Manuel Maria in a defesa (30 de maio de 2018)