IGREJA HOJE

A Hora da Comunhão

Abraço do Papa Francisco e do bispo Munib Yunan, presidente da Federação Luterana Mundial, durante a visita a Lund, na Suécia.

Passos históricos no caminho para a unidade dos cristãos.

Na vertigem dos dias, não nos apercebemos da brisa suave que está a levar a Igreja a uma mudança epocal. Do primado da doutrina, está-se a caminhar para o da vida, e, das palavras da Escritura até bem palreadas, vislumbra-se a vida que pode escrever a Escritura. Andamos distraídos e não vemos a história que podemos testemunhar também com o empenho de vários movimentos eclesiais para um ecumenismo de povo, um ecumenismo da vida e de braços elevados ao Céu, que não se cansam de gritar unidade. Muitos de nós fomos formatados para uma visão sectária da vida, da Igreja. Chegou a hora de sentir a riqueza de um só coração. Os passos do Papa Francisco têm o ritmo do acolhimento, com estilo fraterno e cordial, com um olhar que toca os corações, ao jeito de Jesus quando percorria os caminhos da Palestina. Os cismas aconteceram e ainda poderão acontecer. Cavaram-se fossos, mas chegou a hora de construir pontes, de cada um se colocar no lugar do outro. Há muitas cicatrizes, mas também feridas que sangram, ecos de um grito com 2000 anos: “Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste?”, o alfa e o ómega do ecumenismo. Não podemos querer a solução dos problemas com um simples estalar de dedos, mas podemos viver da esperança e conceber caminhos de encontro. É uma prova longa, uma maratona, percorrida com o Espírito Santo. Diante do efémero que nos assiste, ainda mais é necessário fôlego de persistência, difícil quando tudo nos é servido pronto e imediato.

No ecumenismo, novos caminhos significa desbravar e vislumbrar o impensável. A misericórdia é uma mudança de paradigma, um remédio eficaz que vale para as grandes cisões com as Igrejas do Oriente e Ortodoxas, com as Igrejas da Reforma e com as chamadas “Igrejas Livres”. No início do último ano, o ecumenismo passou por Cuba, quando o Papa Francisco se encontrou com o Patriarca Kirill, de Moscovo, um encontro de irmãos assente no martírio, fruto da vida do Evangelho. Uma graça feita fraternidade quando se saboreia o salmo que proclama «como é bom e agradável que os irmãos vivam unidos», pois o verdadeiro triunfalismo está na alegria do testemunho da fé. Já no outono, o Papa Francisco tomou a iniciativa de ir à Suécia para comemorar os 500 anos da Reforma de Lutero, uma etapa de esperança no caminho ecuménico. O encontro decorreu em Lund, onde nasceu a Federação Mundial das Igrejas Luteranas. Na catedral luterana, o Papa Francisco participou numa oração comum e assinou uma declaração conjunta na comemoração dos 500 anos da Reforma Luterana. «Não podemos resignar-nos à divisão e à distância que a separação produziu entre nós», porque esta «divisão afasta-se do desígnio original do povo de Deus». Lutero, um monge agostinho, publicou as suas 95 teses no dia 31 de outubro de 1517, não pensando então romper com a Igreja Católica. As teses faziam parte de uma carta intitulada Disputação sobre o Poder e Eficácia das Indulgências, endereçada ao arcebispo Alberto de Magonza, onde dá conta das suas preocupações quanto a uma prática desviada das Escrituras. Afixadas à porta da igreja de Wittenberg, depressa fizeram germinar conflitos, divisões, excomunhões e guerras.

O diálogo entre luteranos e católicos chegará aos 50 anos em 2017 e os frutos tornam-se visíveis; os conflitos, o ódio e a violência deram lugar à comunhão, bem visível na Declaração conjunta sobre a doutrina da justificação, de 1999. O Papa, na Suécia, foi direto ao assunto, instando a «pedir perdão juntos» e a «reconhecer com a mesma honestidade e amor que a nossa divisão se afastava da intuição original do povo de Deus». E foi mais ousado ao dizer que, «com gratidão, reconhecemos que a Reforma contribuiu para dar maior centralidade à Sagrada Escritura na vida da Igreja». Num ano sublinhado pelas cores da misericórdia, interpela a pergunta de Lutero: «Como posso ter um Deus misericordioso?», que o atormentava. Depois, a Declaração Conjunta assinada pelo Papa Francisco e o bispo Minib Yunan, presidente da Federação Luterana Mundial. Um texto rico onde se sublinha que «nos reaproximamos uns dos outros através do serviço comum ao próximo». E, neste caminho, vamos percorrendo etapas que fortalecem e aquecem os corações. Temos diante de nós a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, que todos os anos decorre de 18 a 25 de janeiro e neste ano olha para a Reconciliação – É o amor de Cristo que nos impele (cf. 2 Coríntios 5, 14-20). Arregacemos as mangas e experimentemos que vivemos a mesma fé e pertencemos ao mesmo corpo de Cristo. Um convite/desafio a colocarmo-nos na perspetiva da unidade, numa contínua conversão, e colocarmo-nos no coração de um Deus que é Amor e cuja essência é a comunhão, a vida da Trindade. Ainda na Suécia, o Papa Francisco falou da mansidão como bem-aventurança e comentou: «A mansidão é uma maneira de ser e viver que nos assemelha a Jesus e nos faz estar unidos entre nós; faz com que deixemos de lado tudo o que nos divide e nos contrapõe, a fim de procurarmos formas sempre novas para avançar no caminho da unidade. A mansidão é a atitude de quem não tem nada a perder, porque a sua única riqueza é Deus». •Cidade Nova | N.º 01/2017Cidade Nova

José Maia