Humano demasiado humano

Humano demasiado humanoSó exteriormente a violência terrorista pode ser definida desumana. No sentido que, observando bem, todas as ideologias totalitárias — primeiro o comunismo bolchevique e o nacional-socialismo, hoje fenómenos como o jihadismo — com efeito, escondem uma inclinação humana, até demasiado humana, para a dominação do outro e do terror para finalidades próprias. Aqui, talvez, quando tentamos explicar, é preciso procurar dar um sentido aos carros armadilhados do Iraque, às decapitações do Is, às empreitadas suicidas de Al Qaeda, aos massacres de inocentes por parte de Boko Haram. As interpretações correntes destes fenómenos tendem a colher alguns aspectos do terrorismo jihadista: antes de tudo, a intenção de fazer com que o inimigo sinta dor para «o educar». Depois — como no caso do assassinato de 141 alunos da escola de Peshawar no Paquistão, a 16 de Dezembro passado — a hostilidade contra a cultura, sobretudo quando é destinada a mulheres e crianças, uma hostilidade considerada quase expressão de obscurantismo, filha de um atraso cultural não bem especificado. Muitas vezes evidencia-se como as técnicas terroristas são usadas segundo o mesmo princípio utilizado na natureza pela cobra em relação à rã: o medo paralisador que facilita a agressão e a liquidação da presa. Na falta de exemplos melhores, podemos dizer que se refugia na demonização genérica dos actos malvados: eles seriam por definição «absurdos », «delirantes», «loucos». Mas se analisarmos a estrutura de cada sistema totalitário devemos reconhecer como ele persegue uma sua lógica inflexível e até previsível, semelhante à acção do vírus, naturalmente ideológico. Com efeito, todos os totalitarismos históricos são portadores de uma carga agressiva e expansiva, são filhos de Polemos, da guerra, e não pode ser diferente. Conseguem adaptar-se tacticamente às várias situações geopolíticas e sabem utilizar consolidadas estratégias diplomáticas e comunicativas e, entretanto, no fundo devem continuar a expandirse e a conquistar sempre novos espaços, pessoas e territórios. Se não o fizerem, por contingências políticomilitares ou para se atenuar do seu próprio poder expansivo, significa que na realidade entraram numa fase de regressão, e o declínio poderia anunciar o seu fim. Para citar uma conhecida definição de Enrico Berlinguer, aplicada à União Soviética na sua fase senil, poderia significar que se esgotou o seu «impulso propulsor». O jihadismo, infelizmente, ainda parece distante do seu fim. Todavia, para manter a metáfora do vírus, não podemos esquecer que a ideologia totalitária não podendo difundir-se tende a agir também contra si mesma, tendo como alvo aqueles que, em teoria, deveria representar e proteger. Utilizam assim o recurso à intimidação dos dissidentes, à liquidação de cada oposição, à eliminação dos não-ortodoxos, ao terror interno generalizado contra os «diversos» e os «infiéis», à denúncia de conspirações e traições sempre novas, às repressões, etc. Então o terrorismo e os actos cruéis de violência, que hoje enchem as páginas dos jornais, os ecrãs das televisões e os vídeos dos computadores, poderiam ser só uma máscara da sua verdadeira natureza totalitária. E, semelhante a um parasita, ela utiliza qualquer material à disposição — um livro sagrado, o orgulho nacional, o culto do solo, do sangue, da pertença de classe — só instrumentalmente, com a finalidade de perseguir o verdadeiro objectivo oculto, isto é, o controle e o poder. E tal controle, por sua vez, poderia ter a única função de perpetuar o seu sistema de domínio. Aprofundando ainda mais a questão, os actos «desumanos» aos quais assistimos haurem, como sua autêntica fonte, de um niilismo não declarado, mas do qual entrevemos as feições diabólicas na exaltação do suicídio e numa evidente pulsão de morte. O colectivismo totalitário visa, sem o confessar, a destruição da humanidade e o seu anulamento. Uma alma maligna está no fundo deste inferno ideológico, e eis então que encontra o sentido naquilo que para nós parece desprovido de finalidade. Mais uma vez, estamos diante do niilismo dostoevskiano, obsoleto. Todos, preocupados em denunciar o conformismo de massa e as formas «modernas» de autoritarismo, esquecemos o coração de trevas. Isto é, o mal totalitário como doença diabólica do poder capaz só de destruir. Um poder que, precisamente porque ultrapassa todos os limites, só pode ser pura energia de prepotência, inesgotável fonte de sofrimento e de morte. Destruindo e destruindo-se, substituindo-se a Deus, talvez o niilismo denunciado por Dostoevski, e depois teorizado por Nietzsche como força vital, é aquele com o qual todos nós hoje somos chamados a fazer as contas.

Fonte: Dario Fertilio (L’OSSERVATORE ROMANO)