Ecclesia in Africa - A Primeira evangelização dos povos de África (I)

Cartago

Poucos sabem ou se recordam que o cristianismo chegou ao continente africano ainda antes de chegar até nós, ibéricos e lusitanos. A exortação pós-sinodal Ecclesia in Africa relembra essa “plêiade inumerável de santos, mártires, confessores e virgens” que nos antecederam e enriqueceram a vida e história da Igreja neste território, desde o primeiro século da nossa era. Poderíamos lembrar os nomes de escritores ilustres como os alexandrinos Clemente e Orígenes e os cartagineses Tertuliano e Cipriano, ou doutores da Igreja, como Agostinho e Cirilo, ou ainda os monges fundadores, como santo Agostinho e São Pacómio…

De facto, o norte de África foi uma das primeiras regiões do mundo a ser evangelizadas. Sem levar em conta a passagem de Jesus, na sua infância, pelo Egipto, os documentos mais antigos fazem-nos saber que a fé cristã chegou à África romana nos finais do século I. Esta primeira missionação terá ocorrido através das comunidades judaicas e graças a algumas importantes vias de comunicação e de trocas comerciais que conectavam as províncias africanas com o oriente e com Roma. Cartago, capital da África romanizada, foi o primeiro centro de vida cristã. Do0 ano 180 data o documento mais antigo que conhecemos sobre tal vitalidade da fé nesta região: um grupo de cristãos catecúmenos, homens e mulheres, são condenados à morte por causa da fé. Poucos anos depois, o conterrâneo Tertuliano (197 d.C.) sentenciava que “o Sangue dos mártires é semente de cristãos”. E, de facto, depressa a “semente” do testemunho germinou em abundantes frutos por toda a África setentrional. De tal maneira que o mesmo Tertuliano pôde afirmar: “nascemos há pouco tempo e já estamos por toda a parte: nas cidades, nas ilhas, nos castelos, nas vilas, nas aldeias…”

Poucas décadas depois, encontramos já uma alargada rede de comunidades presididas pelo respetivo bispo e espalhada por todo o norte de África (África romana). Por volta dos anos 250, sob o episcopado de São Cipriano, a Igreja africana, com a sua sede principal em Cartago, rivaliza com a Igreja de Roma em vitalidade e prestígio. Santa Mónica e seu filho Agostinho são apenas dois frutos mais conhecidos desta primeira evangelização das terras africanas. Mais ainda, há hoje boas razões para se pensar que a fé cristã tenha chegado ao nosso território vinda precisamente deste protocristianismo africano. Quer isto dizer que, afinal, a segunda missionação de África, levada a cabo pelos missionários portugueses nos séculos XV-XVI, não fez senão retribuir o tesouro que antes recebêramos.

Frei Isidro Lamelas, OFM