Desconfiança mútua

Falando da civilização europeia e ocidental e da sociedade contemporânea, a característica nelas mais saliente engloba o fenómeno da secularização. Esta trouxe a descristianização progressiva da sociedade na qual se verifica a ausência ou diluição da prática religiosa e a perda crescente da inspiração cristã nos comportamentos e nos critérios morais de discernimento da realidade. Com ela se construiu uma cultura profana em que, em nome da liberdade e da autonomia das realidades seculares, se nega ou se procura propositadamente destruir toda a referência a Deus, a Jesus e à doutrina da Igreja. Esta cultura profana manifesta-se como agnosticismo nos ambientes intelectuais universitários e em largas faixas da juventude cujos progenitores beberam das influências da década de sessenta do século XX. Lembremo-nos da revolução nas mentalidades produzida pelos hippies e pelo Maio/68. Não é de estranhar que toda essa energia, assente no capitalismo liberal e nas ideologias políticas de liberdade e libertinagem, tivesse feito explodir uma bomba de individualismo anti autoridade, até então camuflada ou reprimida na sociedade europeia. Daí a detonação rápida de uma das maiores tragédias que caiu sobre a humanidade atual - coisa que já vinha acontecendo dois séculos antes — expressa na desconfiança mútua que entre si nutrem a Igreja e o Mundo. Em muitos casos, o Mundo respeita a Igreja como se respeita uma avozinha gasta, que é necessário colocar amavelmente de lado para se ficar livre; ou como uma instituição moralizadora que favorece a estabilidade social. Ao mesmo tempo, a Igreja olha, de soslaio, o Mundo, mede-o de alto abaixo e não consegue escapar ao preconceito de que está perante um inimigo. O que, historicamente, contribuiu para esta dicotomia de perspetivas e para este andar de costas voltadas foi o Iluminismo, que nasceu enviesado, anticatólico e com a intenção de destruir o “poder” da Igreja, assumindo-se como seu substituto. Em vez de inclusão, preferiu a exclusão. A Igreja - apelidada de obscurantista - foi posta de parte, em nome do progresso!
Ora o Iluminismo é um conceito que sintetiza diversas tradições filosóficas, sociais e políticas e, ao mesmo tempo, abrange também correntes intelectuais e atitudes religiosas de pensamento e de ação que acreditam que os seres humanos estão em condições de tornar melhor este mundo, através do livre exercício das capacidades humanas e do engajamento politico-social, sem Deus. Muitos iluministas, crentes nessas tradições filosóficas, sociais e políticas, filiaram-se nas Lojas Maçónicas como um lugar seguro e intelectualmente livre e neutro, apropriado para a discussão das suas ideias, principalmente no século XIX, quando os ideais libertários ainda sofriam sérias restrições por parte dos governos absolutistas na Europa continental. A Maçonaria contribuiu para a difusão do Iluminismo, tal como este contribuiu para a difusão das lojas maçónicas. Pois bem. E aqui que cabem três perguntas: ganhou-se alguma coisa com a separação Igreja-Mundo? O Mundo evoluiu cientificamente, é verdade, mas... o homem tornou- -se melhor? Haverá alguém que tenha coragem de negar o papel importantíssimo da Igreja na sociedade e que possa desprezar a ação social que ela desenvolve?
Cón. Manuel Maria in a Defesa, 12 de setembro de 2018