Crise de Valores

A história recente da Europa confirma que o século XX foi um século politicamente sem rumo, com duas grandes guerras que destruíram muito património edificado e fizeram morrer, entre militares e civis, dezenas de milhões de pessoas. Insatisfeita com tanta carnificina, a ideologia comunista soviética continuou a mesma ação destrutiva e matou outros tantos milhões. Ao que a Europa, culturalmente evoluída, chegou! Apostada em resolver os seus problemas de liberdade, autonomia e independência, fê-lo usando o poderio, a vingança, a supremacia racial, guerras quentes e frias, suspeitas, blocos opostos, ódio mútuo. Foi tal o desvario que, se quiséssemos usar uma metáfora capaz de elucidar o que aconteceu, precisaríamos de imaginar uma bomba cujos componentes seriam a soma de todos os pecados capitais agregados num ó. De facto, foi isso que aconteceu. Só a meio do século é que, preocupada com a construção da paz, a Europa desenvolveu a política dos direitos humanos, porque não queria mais guerras dentro das suas fronteiras.
Só que, ao resolver alguns aspetos visíveis da crise — como a justiça e o entendimento político — desconsiderou e esqueceu algo essencial: a pessoa e os seus valores de dignidade moral. Depois da queda do muro de Berlim, convenceu-se de que todos os males constrangedores tinham acabado. E foi nessa altura que entraram em ação muitos «construtores» de ideias, que acharam que todos os problemas se resolveriam com dinheiro - e, de imediato, o capitalismo tornou-se selvagem. Outros acharam que um povo sem tabus e sem normas éticas seria mais feliz - e a crise moral abateu-se sobre nós.
Desde os anos noventa do século XX, tentaram convencermos de que todas as crises se reduziam à crise económico-financeira e os portugueses foram vítimas de muitas asneiras de gestão ruinosa de banqueiros e de políticos, a que a Troika deu despacho favorável com imposição de impostos, taxas e não sei que mais. A amargura de boca e a magreza das carteiras, as quebras na esperança e as avaliações financeiras a descambar para o nível de lixo, foi um vê-se-te-avias em precedentes. Pelo menos foi essa a impressão que tal sangria provocou. A crise de valores verdadeiramente humanos (valores do Ser, não valores do Ter) provocou todas as outras crises.
Não tenhamos ilusões: quando as grandes áreas significativas da realidade — mundo, homem, Deus — sofrem obscurecimento, é normal que apareça no horizonte humano a crise moral. Esta está conectada, sem dúvida, à crise da cultura e da civilização, porque a crise moral, muito mais que constituída por questões no agir, vê-se na desorientação e na falta de critérios na cosmovisão cujo fim é a dignidade. E uma crise nas estruturas mais do que nos indivíduos.
E foi isso que aconteceu! Há quem acredite que, na atual civilização ocidental, se trata de uma simples consequência da descristianização da Europa e que o bezerro de ouro voltou a ser o deus ao qual todos rendem maior tributo. Sendo estas explicações razoáveis e verdadeiras — todas têm a sua parcela de verdade e de razão - creio que camuflam o problema, porque esquecem a raiz fundamental deste fenómeno, que todos admitem e que muitíssimos lamentam: é o pôr-de-parte a responsabilidade na procura do bem de todos, que deve sobrepor-se ao bem de cada um.