Avareza:_- Situações à volta do «ter»

O alerta já tem dois mil anos: “Não podeis servir a dois senhores... não podeis servir a Deus e ao dinheiro”. Servir o deus dinheiro é cair na tentação identificada no «tudo isto te darei se, prostrado, me adorares». Está visto que a humanidade, apesar dos alertas, continua a assobiar para o lado e a preferir a idolatria do dinheiro. De vez em quando somos confrontados com notícias sobre desvios, fraudes, roubos, burlas e um sem-número de esquemas a envolver dinheiro e riquezas que voam duns donos para outros, de uns países para outros... até que poisam num qualquer paraíso fiscal. E por isso que os ricos, fechados nos castelos da sua defesa, estão cada vez mais ricos; e os pobres, soltos na sua miséria, estão cada vez mais pobres. E o tio Patinhas no seu melhor! Não é que ser-rico seja crime: sê-lo-á se for à custa dos pobres. Ser avarento açambarcador é que é pecado.
Feitos estes reparos, tentemos um relance compreensivo sobre o pecado da avareza. A avareza está ligada a uma desordenada ambição de dinheiro: avarus é alguém “avidus aeris”, ávido de cobre [dinheiro]. Por extensão, a avareza é a desordenada cobiça de quaisquer bens. O avaro nunca se sacia de dinheiro — diz o Eclesiastes (Ecl 5, 9). E S. Lucas (cf. Lc 12, 13-34) refere o pedido que certo homem fez a Jesus para que este o ajudasse num litígio sobre uma herança - assunto que gerou uma demorada discussão sobre o relacionamento humano com as riquezas. Dessa discussão nasceu uma pergunta, uma afirmação, uma parábola e um sermão. “Quem me constituiu juiz ou árbitro entre vós”? “Tende cuidado e guardai-vos de toda e qualquer avareza; porque a vida de um homem não depende da abundância dos bens que possui”. “Havia um homem que só se preocupava em armazenar... sem se interessar com a vida eterna”. Finalmente, “onde está o vosso tesouro, aí está também o vosso coração”. Moral da história: é tão fácil ficarmos presos aos regalos desta vida, não é?! Somos capazes de dedicar todo o tempo, atenção e esforço ao nosso bem-estar material, de modo que já não nos sobra tempo nem ânimo para nos dedicarmos às causas dos pobres e de Deus!
O avarento só tem olhos para as coisas, não para as pessoas, porque não consegue escapar ao anelo desordenado por possuir, aumentar e conservar os bens terrenos, tomando-os por fim último. E o culto prestado a “Mamona”, o extravio do coração nas coisas perecedouras. E idolatria. Na prática o avarento tem mais estima por um negócio bem montado do que pelo valor da pessoa humana, a ponto de a avareza conduzir, geralmente, à dureza de tratamento com o próximo, à ambição do poder, à injustiça e à seleção dos fins que se quer atingir, sem escrúpulos e sem olhar aos meios. Na prática, está em causa a falta de generosidade, a mesquinhez, a sovinice e a usura. Atenção que a avareza não costuma manifestar- -se no seu estado puro. Anda misturada com outras atitudes ligadas ao poder económico, tanto nas causas como nas consequências. Encontramo-la com características de traição, fraude, mentira, perjúrio, violência e dureza de coração, especificamente quando, em famílias ricas, se procede às partilhas de heranças avultadas, com advogados, zangas e discussões envolvidas. A avareza, nestes casos, suplanta a racionalidade...
Cón. Manuel Maria in a defesa, 10 de julho.